quarta-feira, 20 de abril de 2011

Groupieness ou o efeito do Ego esponja

Gostamos de música, e acabamos por gostar de quem a faz, de quem a toca ou canta mais precisamente. Não acontece a todos, mas muitos começam a projectar a música naquele que a faz, ocorrendo aqui uma mescla intersubjectiva de emoções. "Aquela canção é tão bela, a Laurie Anderson também o é, e está a cantá-la, e eu gostava de possuir a música/ a Laurie." Não sei muito de psicologia, mas parece-me ser aqui que se desenvolve a raiz do fenómeno groupieness. O que faz um fâ de música atravessar a linha da intimidade emocional e sexual?
Quando procuramos a perfeição, em nós próprios ou nos outros, estamos à procura de uma ilusão do Ideal. O nosso Ego está á procura disto. A busca de um placebo psicoterapêutico incorporado na imagem de uma "estrela". Vai engordar o teu ego, claro, vai ser uma satisfação substitutiva com muito mais poder e magnetismo que qualquer outra que tenhas escolhido antes, porque é uma pessoa, um ser humano de carne e osso, através do qual, conscientemente ou não, vais absorver todo o poder que projectaste na imagem representativa dele/dela. Como se o acto sexual, o simples beijo que não é tão simples assim, fosse uma forma de seres eternamente belo, imortal e poderoso, adjectivos frequentemente atribuídos aos músicos de Rock. Mas aqui surgem problemas de cariz psicológico: não é saudável para ninguém valorizar-se continuamente através da aceitação por parte de alguém a quem foi atribuído um falso poder com base em ilusões. Porque tudo é subjectivo. Lá está aquele tipo tão cool, que tem uma voz agradável, que toca bem ou mal, que se tornou um ícone de tudo o que não conseguiste ou não consegues atingir, mas sob essa representação está um homem comum, com medos, ansiedades, família, história, defeitos, virtudes, que no momento do sexo pode muito bem desapontar-te tanto que te irias surpreender, que não é perfeiro, que comete erros,que pode não ser tão simpático e cool como idealizaste, que é como tu. Humano. Uma mente embuída num corpo. E depois do teu ego absorver todo esse poder ilusório, vem o vazio. Um vazio que supera em muito a excitação proveniente de teres fodido uma " rock star", o que lhe queiras chamar. Escrevo isto baseado numa experiência de uma fonte fidedigna.
Agora, uma estória pessoal que não ilustra esta questão tão bem como eu gostaria, mas partilho-a . Quando os Violent Femmes vieram a Portugal nos anos 90, eu não tinha dinheiro para o concerto e fui até uma loja de discos passear, quando vejo um papel pregado na parede que me informava que os senhores iam estar nesse dia, àquela mesma hora, a dar autógrafos. Menos de um minuto depois, dei de caras com eles. Estavam lá todos menos o vocalista Gordon Gano, quem eu gostaria mais de conhecer. Então conversei com eles, nada de mais, " you're my favourite band you Know, I really love your lyrics, blah blah blah..."
Nisto, o baterista deu-me um passe para ir ter com eles a uma festa na suite de um hotel qualquer que decorreria após o concerto. Disse-me para aparecer. Na altura eu aparentava ter uns 16 anos, duvido que o convite fosse apenas para conversar. A questão é que nunca cheguei a aparecer. Achava-os tão fantásticos que fiz uma série de filmes na minha jovem mente, e tinha receio do que pudesse acontecer, do que eu pudesse fazer,adicionado ao facto de na data ter um namorado,"impedimento" que hoje me soa algo engraçado. Ora na altura eles tinham o triplo da minha idade, o vocalista era gay, factor que na altura eu desconhecia, e deviam estar cansados depois de um concerto. Nada iria correr como eu idealizara. Mas arrependo-me. Hoje posso dizer que gostaria muito de ter ao menos tentado falar com eles. Continuam a ser a minha banda "preferida".

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